sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Diálogo?

- Olá boa tarde.

- Olá.

- Como está?

- Estou bem, muito obrigado. E a senhora?

- Cá vamos andando, graças a Deus.

- O tempo hoje está tão escuro... parece que vai chover!

- Sim sim, deram ontem na televisão, parece que chove o dia todo.

- Mas amanhã já dá sol.

- Sim... olhe, tenho de ir fazer umas compras. Gosto em vê-la.

- Até à próxima, obrigado.

- Adeus.


Este é um "diálogo" que ouvimos todos os dias. Entre duas senhoras de meia idade, mas também pode ser transposto entre dois homens, um homem e uma mulher, amigos, conhecidos, ou eventualmente meros desconhecidos, a querer puxar assunto, num momento de torpor.

É um "diálogo" que pode ocorrer numa fila de Supermercado, numa paragem de autocarro, numa sala de espera de um consultório... em tantos lugares possíveis e imaginários.

O tempo. Tempo no sentido... climático. É este sempre o motivo, ou quase sempre, que as pessoas arranjam, para de forma vazia e fútil, terem assunto de conversa, quando na realidade se não tem assunto nenhum!!!!

A futilidade. A bela da futilidade. O vazio. Ausência de conteúdo. O tempo, o pobre do tempo, solarengo ou chuvoso, é o bode expiatório para a escassez de temas de conversa.

Seguido sempre da desculpa do "tenho que fazer alguma coisa". Porra! São as pessoas realmente assim tão ocupadas, que têm sempre alguma coisa para fazer?

Serão mesmo?

Dir-me-ão vocês que algumas sim. Mas algumas, não é igual a todas. Ou teorizando eu próprio, não sofreremos nós, nesta sociedade em que a futilidade é dona e senhora, de uma verdadeira alergia ao contacto, ao diálogo, descomprometido e desinteressado?

Terá que haver sempre "algo" por trás?

Terá que haver sempre aquela redoma que nos fecha, que nos impede de ser nós mesmos, que sob aquela capa de frieza, gélida e polar, nos protege de (imaginárias) agressões exteriores?

Somos hipócritas todos?

Seremos eventualmente... ou somos produtos de uma sociedade histericamente interesseira, e que, quando falta interesse e motivo, nos escudamos atrás do "tempo" e do "ter que fazer"?

Deixámos genuinamente de nos preocupar uns com os outros?

Vejo que sim... mas talvez não. Uns resistentes de peito aberto lutarão contra a ordem estabelecida das coisas. E desenfreadamente calmos e sinceros, recolherão a indiferença e incompreensão da "maralha".

Mas continuarão, e persistirão, e se frustrarão, e chorarão, e voltarão a tentar e novamente persistirão.

Já dizia o outro da música, quando eu era puto: "dá-me um ideal".

Quero que me dês o teu. Livremente, e com amor.

E sem me falares do "tempo". Eh pá... por acaso chove.

E troveja, na minha alma.


Alegremente, e sem assunto...


Mas só por agora!

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